“Sim, eu joguei uma partida relâmpago uma vez. Foi em um trem em 1929.” – Mikhail Botvinnik, entrevistado por Genna Sosonko em 1989.
Como eu já estava classificado para a final do CBS 2008 aproveitei os problemas da fase classificatória para fazer uma simulação da final, tentando resolver os 12 problemas em 3 horas, anotando os meus resultados na folha de respostas e contabilizando os pontos como se fora o árbitro do evento!
Esta simulação é muito proveitosa porque ajuda a fazer um ajuste fino de decisões que devem ser tomadas durante uma final como esta. Por exemplo, frequentemente o solucionista é confrontado com a opção de continuar tentando resolver uma composição ou passar para outro problema onde pode conseguir alguns pontos extras, estas decisões devem ser tomadas no momento preciso para não afetar o seu resultado na competição.
A fase classificatória do CBS 2008 tem a mesma quantidade e formato de problemas da final (que será realizada em Belo Horizonte neste domingo, dia 27 de julho, às 9h30m da manhã). São 4 diretos em 2, 2 diretos em 3, 2 diretos em 4 ou mais lances, 2 estudos de final, 1 ajudado e 1 inverso, totalizando 12 problemas. Vejamos os seis primeiros problemas desta classificatória:
CBS 2008, Problema 1
Comins Mansfield, 1956
Mate em 2
Este é um problema ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil porque a estrutura de peças na coluna h (BTTB), conhecida no meio problemístico como “Organ Pipes“, é um indicador que a chave deve ser uma das quatro interferências dos peões brancos em g3, g4, f3 ou f4. Difícil porque apenas uma destas quatro tentativas resolve o problema enquanto as outras tres são refutadas por apenas um movimento sutil das pretas. Ou seja, 3 interferências são ensaios, ou tries, e uma interferência resolve o problema.
Outra dificuldade é que as refutações das pretas são sutis. Assim que vi esta composição eu passei para a segunda da séria antes de resolvê-la: eu queria me “aquecer” antes de analisar este problema de Comins Mansfield. Depois de resolver os outros 3 diretos em dois e o inverso voltei para este problema e encontrei a chave sem muito esforço: 1. f3!, ameaçando 2. De3# e 2. Dd1#. Se 1. f4? (2. De4#/B:b3#) e3!, 1. g3? (2. B:b3#/De3#) Cc2! e se 1. g4? (2. Dd1#/D:e4#) C:f2!
CBS 2008, Problema 2
A. Galitzky, 1895
Mate em 2

Resolvi este segundo problema ao perceber que se o rei preto capturasse a torre de c6 (supondo que ela não estivesse defendida pela dama) 2. Dd7# seria mate. Assim, sem demorar muito, dá para ver que 1. Dg4! ou 1. Df5? podem ser a solução.
1. Dg4 tem a vantagem de ter um mate para qualquer movimento do bispo de h1 e as pretas estão em zug: apesar de não haver uma ameaça direta qualquer movimento das pretas permite um mate das brancas. Um elemento adicional deste problema é a chamada “correção preta”: Se 1. … Ca~ 2. Dc4#, 1. … C:c6 (corrigindo o movimento genérico) 2. c4#, se 1. Cf~ 2. Td6#, 1. … C:e5 2. Cb4#, se 1. … B~ 2. D:b#, 1. … Be4 2. De6#. As outras duas variantes são:
1. … b5 2. Tc5# e 1. … R:c6 (a variante que nos ajudou a resolver o problema) 2. Dd7#.
CBS 2008, Problema 3
Arnoldo Ellerman, 1917
Mate em 2
O terceiro problema tem duas estruturas muito sugestivas, a bateria branca na coluna c (o bispo em c6 entre a torre de c8 e o rei em c3) e a semi-pregadura na diagonal c3-g7 (a torre de d4 e o cavalo de e5 entre o bispo de g7 e o rei em c3). A segunda estrutura é uma semi-pregadura porque se uma das peças sair da sua casa a outra fica pregada. Como estas duas peças impedem um possível mate com a bateria, já que o cavalo pode cobrir c6 ou c4 e a torre pode cobrir c4 então a chave deve ser uma ameaça que provoque o movimento de cada uma destas peças! Perceba também que a dama em g6 não parece ter nenhuma função, portanto pode ser a peça a realizar a chave do problema. Assim 1. Dg4! parece natural, a dama fica em prise pelas duas peças da semi-pregadura e ameaça 2. D:d4#. As defesas são 1. … Td~ 2. Dc4#, 1. … Td3+ 2. Bf3#, 1. … Ta4(b4/c4) 2. Df3#, 1. … T:g4(f4/e4) 2. Be4#, 1. … C:g4(f3) 2. Be4#. Interessante é que 1. … C:c6 não evita 2. D:d4# porque agora o cavalo também está pregado!
CBS 2008, Problema 4
William Shimkman, 1902
Mate em 2
O último direto em dois é mais fácil de resolver do que pode aparentar. O Cavalo em d7 que não pode se mover por 2. Cf6#, o cavalo de b2 que está imóvel por 2. Dd3# o bispo de h1 que não pode sair de h1 sem permitir 2. B:g2# ou 2. Df3# e o peão de g2 que não pode avançar por 2. Df3# e a captura e:d5 que não é possível por 2. De3# indicam um problema de bloco completo. Além disto se o rei preto pudesse capturar o cavalo de d5 seria possível dar mate com a dama na diagonal a8-h1 (se a dama tivesse acesso a a8 ou b7.
Assim é natural e quase instantâneo pensar em 1. Da3! como sendo a solução: todos os mates são mantidos e os novos movimentos das pretas são respondidos com mate: 1. … R:d5 2. Da8# e 1. … b:a3 (b3) 2. Cc3#. Um solucionista experiente passa por este processo de raciocínio muito rapidamente e pode resolver este problema em poucos segundos.
CBS 2008, Problema 5
P. Blake, 1907
Mate em 3
Este é um mate em 3 particularmente difícil embora haja algumas indicações sobre qual deve ser a chave. Uma tentativa natural é 1. Cd3?, ameaçando 2. Cf2# e se 1. … R:d3? 2. Df5#, porém as pretas podem jogar 1. … e6, interrompendo o controle de f5. Como 1. Cd3 é uma ameaça curta (ou seja, que tenta dar mate no segundo lance) podemos tentar outro lance que ameace 2. Cd3. Assim 1. Dh3! aparece como uma tentativa natural: a dama passa da casa crítica e6 e agora ameaça 2. Cd3 seguido de 3. Cf2#.
As defesas das pretas são super interessantes: 1. … b:c5 (auto-bloqueio em c5) 2. Bd1 Rd5 3. B:f3#, 1. … e6 (auto-bloqueio em e6) 2. Cg4 Rf5 3. Bc2#, 1. … e:f6 (auto-bloqueio em f6) 2. Df5+ R:f5 3. Cd6# e finalmente o não-temático (o único que não provoca um auto bloqueio) 1. … Ce6 2. B:e6 seguido de 3. Df5#.
CBS 2008, Problema 6
L. Loshinsky, 1974
Mate em 3
Da mesma forma que o problema 3 esta composição tem dois elementos que chamam muito a atenção do solucionista:
1) a bateria branca de peão (e5) e dama (b8).
2) a bateria mascarada preta de bispo (c4) e peão (f7). Esta é uma bateria mascarada porque a torre branca de e6 está no “meio do caminho”. Com um movimento da torre temos uma bateria, com o movimento do peão (que não seja captura da torre) temos uma pregadura.
Para que a bateria branca possa agir é necessário que a torre de e6 se mova porém isto permite que o peão de f7 se mova com xeque! Porém as brancas poderiam responder a este xeque com Cd5, Bd5 ou d5 seguido de e6# caso o bispo preto capture em d5. Antes disto é necessário descobrir para que casa a torre deve ir e qual a ameaça (porque se não houver ameaça as pretas não serão obrigadas a “soltar o monstro” da bateria. 1. Tg6! ameaçando 2. Ch3+ seguido de 3. Bg3# surge como uma possibilidade interessante, além de criar uma terceira opção de xeque das pretas, agora com f:g6.
Vejamos as variantes: 1. … f5+ 2. Bd5 seguido de 3. e6# ou 3. Ce6#, 1. … f6+ 2. d5 seguido de 3. e6# ou 3. Ce6#, 1. … f:g6+ 2. Cd5+ B:d5+ 3. e6#, 2. … T:d5 3. Df8#. Ainda há a defesa não temática (e que eu não anotei, perdendo um ponto na minha simulação) 1. … Bf1 2. Ce6+ f:e6 3. Df8#
Em breve veremos os outros 6 problemas das fase classificatória, até lá!